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Em seu poema “Um chamado João”, Carlos Drummond de Andrade só consegue se perguntar. Indefine Guimarães Rosa com muitos pontos de interrogação (e apenas um ponto final). “João era tudo? / (…) Guardava rios no bolso / cada qual em sua cor de água / sem misturar, sem conflitar?” Para a cultura brasileira, João Guimarães Rosa é, ele próprio, veredas, dos muitos rios que Drummond intuiu em seu bolso. Obra fértil. Obra de caminhos. Ao recriar a fala, a língua e a linguagem, é impossível ficar impassível – é a nós mesmos que ele está reinventando, posto que a linguagem não é matéria só da literatura. Se o é, é porque, antes, a linguagem é o que nos constitui e o que constituímos. Durante muitos anos, pela riqueza formal de sua obra, Guimarães Rosa foi considerado “inadaptável” para o cinema. No entanto, seria ingênuo supor que tais obstáculos não seriam o próprio estímulo, e não tardaram a aparecer os primeiros filmes adaptados de seus textos. Cada cineasta seguiu sua própria vereda, privilegiando um ou outro aspecto de tantos possíveis – a trama, o texto, a fala, os personagens, os cenários. Não é de estranhar, portanto, que alguns filmes optassem, deliberadamente, em serem, também, constituídos desse emaranhado de possibilidades, entrecruzando contos e referências. Hoje, como os rios de Guimarães Rosa já chegaram ao mar, é impossível mensurar a influência de sua obra. Assim, seria limitador exibir apenas os filmes de ficção, adaptações literárias. Por isso, compõem a mostra, também, documentários feitos a partir de seu universo, incluindo três curtas sobre o personagente Manuelzão. E, se alguns outros filmes não estão referenciados diretamente em sua obra, tampouco poderíamos nos furtar a exibi-los, uma vez que é certo que cruzaram ou percorreram algumas de suas veredas, já que o cinema, como o sertão, é do tamanho do mundo. Bem-vindo ao Cinema: Veredas – Os filmes a partir de João Guimarães Rosa. Que seja boa a sua travessia! Eduardo Ades
CAIXA Cultural ·
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