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Pirlimpsiquice ou a arte do representar
sem fim Por um olhar sem precauções A imagem na literatura e a palavra no cinema O grão da escritura, segundo Roland
Barthes... Diário do sertão
(ensaio)
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Conforme o ponto de vista geográfico, Grande sertão: veredas fornece ao leitor a paisagem, variegada, dessa região de Minas Gerais. O sertão do Nordeste, mais explorado na literatura e no cinema, associa-se a noções de secura e de caatinga – com sua vegetação tacanha, eriçada de espinhos e garranchos. Já o sertão mineiro é dominado pelos campos gerais, com suas pastagens boas para o gado e suas “veredas”, onde as águas alimentam o vicejar dos renques de buritis. Alternam-se matas e florestas, também. O ponto de vista mítico confere às conflagrações locais entre bandos de jagunços a serviço dos coronéis visos de novela de cavalaria, como se fossem histórias de Carlos Magno e os doze pares de França, ou então do rei Artur e a Demanda do Santo Graal. A perspectiva metafísica transfigura o sertão em arena
abstrata onde o mal grassa, onde se joga o destino de homens e mulheres,
onde Deus e o Diabo travam uma batalha cósmica que tem por trunfo
a salvação ou a danação da alma dos seres
humanos. Em primeiro lugar, salta aos olhos a alteridade de gênero: ocupa a linha de frente da narrativa a personagem de Diadorim. Desde o momento em que entra em cena reconhece-se uma donzela-guerreira saída da grande tradição épica, descendente das baladas dos rimances velhos ibéricos, em que uma filha vestida de homem e destra em armas assume como missão vingar a morte do pai abatido em luta. Ao apaixonar-se por ela, sem duvidar de seu disfarce, Riobaldo torna-se presa de elucubrações sobre as ambigüidades entre a diferença e a semelhança. Em segundo lugar, mas não de menor relevância, vem a alteridade de classe social, que mostra os jagunços como soldados rasos versus os latifundiários comandantes, ou, em outros termos, a plebe versus a oligarquia. Desenrola-se uma reflexão sobre o sistema de dominação que rege esse arranjo, através do recurso de fazer de Riobaldo alguém que transita entre as duas classes. Pois, filho bastardo de fazendeiro, depois de ascender de peão a chefe de bando, herdará fazendas, desprendendo-se da camada subalterna. Mas há uma outra, menos perceptível: enquanto aquelas duas predominam, ocupando toda a extensão do romance, surge ainda a alteridade de origem nacional, e, aliás, de uma maneira bem curiosa. Em Curralinho, convivem o Alemão Vúpes e Sêo Assis Wababa, pai de Rosa’Uarda, primeira namorada de Riobaldo. Constata-se ali o contraste entre duas formas de civilização encarnadas nesses dois expatriados, a saber o nomadismo do alemão, caixeiro-viajante a disseminar novidades tecnológicas, e o sedentarismo do árabe dono da casa-de-comércio “O Primeiro Barateiro da Primavera de São José”. São grandes amigos e dão exemplo de afabilidade entre dessemelhantes. Ao falar deles, Riobaldo avança a observação: “Toda vida gostei demais de estrangeiro...” A destacar, ainda, a inversão do clichê, que vê os árabes como nômades e os alemães como sedentários. Mas nosso escritor se interessou em criar outras situações para forasteiros no restante de sua obra. Em Tutaméia – Terceiras estórias alguns contos envolvem ciganos, como Faraó e a água do rio, O outro ou o outro, Zingaresca... Sabe-se que o escritor fez anotações sobre as roupas, os hábitos e o falar dos ciganos, até os hospedando certa vez no porão de sua casa em Itaguara, onde residiu antes de entrar para a carreira diplomática. Há um italiano em O cavalo que bebia cerveja, de Primeiras estórias, conto que é também uma parábola sobre a intolerância, que alimenta o preconceito contra o exótico. Em Cipango, de Ave, palavra, surgem os japoneses hortelãos, nas chácaras do interior. Percebe-se que Guimarães Rosa se compraz na diferença, o que se evidencia no cuidado com que procura recriá-la. O desastre do casamento entre o chinês Quim e a sertaneja Rita, no conto Orientação, de Tutaméia – Terceiras estórias, constitui um extremo. Aqui, a oposição, e até mesmo a antítese, ocupa todos os níveis da linguagem, indo desde as descrições exteriores de ambos até os fonemas e os sinais gráficos dos termos que os contrapõem: “til no i, pingo no a”. Eles eram “parecidos como uma rapadura e uma escada”. É só depois de desmanchar-se o matrimônio que a dialética entre o mesmo e o outro se completa. Rita, após a partida de Quim Chim, sentindo a falta dele, começa a adquirir características asiáticas, a pele se recobrindo de tons de marfim e açafrão, imitando o marido ao andar com um pé bem na frente do outro. Guimarães Rosa experimentou a mão também em outros conflitos similares. O mais extraordinário é Meu tio o iauaretê, de Estas estória, onde a recusa do reconhecimento do direito à diversidade, expresso em rejeição, implica na metamorfose de um índio em onça, transpondo de volta a linha que separa a cultura do estado de natureza. Se sua alteridade não é legitimada pelo olhar alheio, o outro deixa de ser gente, passa a ser bicho. Como o escritor mostra a concretude desse processo, sem designar explicitamente o genocídio e o etnocídio? Construindo o arcabouço do conto em três línguas: português, tupi e uma espécie de “idioma animal” composto por onomatopéias de rugidos e rosnados. Aqui, nosso escritor foi o mais longe possível em sua percepção da tragédia que pode ser o entrechoque dos diferentes, abalando - mais do que o questionamento de gênero, classe e nacionalidade – os próprios alicerces da civilização. Uma obra como essa só poderia, dada sua riqueza, espraiar-se por outras áreas artísticas. Palpável tem sido sua presença – aliás, crescente – em adaptações para cinema, das quais a mais recente é o belo filme Mutum (2007). As dificuldades são enormes, dado que a força principal de Guimarães Rosa é propriamente a linguagem, que exige, mais do que a fidelidade ao enredo, uma transposição através de criação paralela. Dos obstáculos para obter um tal resultado falam algumas das fracas adaptações existentes, que ficaram fiéis à letra e infiéis ao espírito. Coisa rara, fiel tanto à letra quanto ao espírito, é o paradigma fornecido pelo tratamento que Roberto Santos deu a A hora e vez de Augusto Matraga (1965). Sem esquecer a influência que a obra, em geral, exerceu sobre um leitor constante, Glauber Rocha, e que é palpável em vários de seus filmes, embora maior em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963). No teatro, marcou um ponto alto a encenação que Antunes Filho fez do Matraga (1986); mas outros espetáculos baseados nos demais textos surgem a todo momento. Guimarães Rosa já chegou, também, a um veículo de massas como a televisão, sendo a mais ambiciosa a adaptação de Grande sertão: veredas para uma minissérie da TV Globo, em 1985. Na música, notamos sua influência especialmente nas letras das canções de, entre outros, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Há compositores que se inspiram diretamente em suas estórias, como é o caso do violeiro Paulo Freire. Recentemente, o grupo de música erudita Anima realizou um conjunto de oito concertos durante o mês de abril de 2008, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, baseado no tema da Donzela-Guerreira. E, sem dúvida uma novidade, descobriu-se que seus textos encontram
uma dimensão ampliada quando declamados em voz alta, ou “re-contados”,
de modo que ganharam voga especialistas como Os Miguilins de Cordisburgo,
oriundos da cidade natal do escritor. Não podemos esquecer que
este forjador de neologismos, por vezes, contribuiu com palavras que
agradaram ao gosto popular mais do que outras, como é o caso
do título do livro Sagarana, que passou a ser nome de
escolas, de ruas, de revistas, de projetos artísticos. De qualquer
modo, é lícito cogitar que a polinização
de amplas áreas culturais, a partir das descobertas de Guimarães
Rosa, mal começa. |